terça-feira, 18 de agosto de 2009

Ela Canta, Pobre Ceifeira



Ela Canta, Pobre Ceifeira

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões pra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente ‘stá pensando.
Derrama no meu coração a tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro!
Tornai Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

sábado, 25 de julho de 2009

Está próximo Agosto
Mês de ir às origens
Não verei a primavera
Como tinha anunciado.
Mas lá pelas alturas,
Da montanha babense
Darei muitos abraços
Beijos e mais cumprimentos.
Onde serão correspondidos
Com abertos sentimentos.
.
Tere

sexta-feira, 24 de julho de 2009

De Vinicius de Morais
"A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre."

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Cesário Verde - De Verão


De Verão

No campo; eu acho nele a musa que me anima:

A claridade, a robustez, a acção.

Esta manhã, saí com minha prima,

Em quem eu noto a mais sincera estima

E a mais completa e séria educação.


Criança encantadora! Eu mal esboço o quadro

Da lírica excursão, de intimidade,

Não pinto a velha ermida com seu adro;

Sei só desenho de compasso e esquadro,

Respiro indústria, paz, salubridade.


Andam cantando aos bois; vamos cortando as leiras;

E tu dizias: «Fumas? E as fagulhas?

Apaga o teu cachimbo junto às eiras;

Colhe-me uns brincos rubros nas gingeiras!

Quanto me alegra a calma das debulhas!»


E perguntavas sobre os últimos inventos

Agrícolas. Que aldeias tão lavadas!

Bons ares! Boa luz! Bons alimentos!

Olha: os saloios vivos, corpulentos,

Como nos fazem grandes barretadas!


Voltemos. Na ribeira abundam as ramagens

Dos olivais escuros. Onde irás?

Regressam rebanhos das pastagens;

Ondeiam milhos, nuvens e miragens,

E, silencioso, eu fico para trás.



Numa colina azul brilha um lugar caiado.

Belo! E arrimada ao cabo da sombrinha,

Com teu chapéu de palha, desabado,

Tu continuas na azinhaga; ao lado

Verdeja, vicejante, a nossa vinha.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Soneto à moda antiga ….


Murcharam por agora as nossas flores
Não soubemos adubá-las nem regar
Como num bosque só há silvas a trepar
Assim como podem florescer amores?

Por isso a vida, amor, não tem sentido.
Melhor será baixar o pano da cena
Deste drama que nos rouba a vida amena,
Por especularmos sempre o que tem sido.

Murcharam para sempre nossos ramos?
Não sei. Se o regador não vai regar…
Melhor será os ramos secos podar.

Por isso a vida, amor, oh! breves enganos!
Que se diluirão na imensidão dos anos
E na alegria de cada breve acordar.

Jorge Marrão

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Em Julho nascida

Em Julho nascida,
ceifas a decorrer.
Menina morena
naquele calor
quão abrasador.
Que ali cresceu,
na agreste lomba
até seus 11 anos.
Ficando sempre morena
ano após ano,
mesmo na cidade.
Pois quando nasceu diziam
que morena ficou
porque o sol de Julho
muito a"queimou"
quando nasceu.

.
Tere

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Artigo sobre Babe do Diário de Trás os Montes

Moços solteiros fazem a festa na Lombada por Sandra Canteiro, Jornal Nordeste
"Babe mantém tradições da quadra natalícia com Festa dos Rapazes celebrada ao som da gaita-de-foles, bombo e caixa Vinho, vitela, música tradicional e muita animação são alguns dos ingredientes da Festa dos Rapazes que, todos os anos sem excepção, marca a quadra natalícia em Babe, no concelho de Bragança.Únicas na região transmontana, estas festividades perdem-se na memória dos mais velhos, que ainda se recordam dos dias e noites de juventude passados ao som de gaita-de-foles, bombos, caixas e realejos, enquanto percorriam as ruas da freguesia a interromper o sono e descanso de todos os habitantes. Tendo como líderes o juiz, cujo símbolo é a bandeira nacional, e o seu ajudante, o meirinhos, representado por uma bandeira de pinheiro, os rapazes vêem-se obrigados a pagar multas em dinheiro, caso cheguem tarde à alvorada ou sejam apanhados em alguma falta. “O juiz e o meirinhos convocavam os rapazes solteiros para as 5 horas, que era quando começava a alvorada. Caso algum não aparecesse teria que pagar uma multa estipulada pelos mordomos que representavam a lei”, explicou o presidente da Junta de Freguesia de Babe, Manuel Esteves. Além dos atrasos ou faltas, os moços solteiros eram penalizados em caso de proferirem algum palavrão ou receberem com um ovo podre, entre muitos outros pretextos. “Qualquer coisa, como uma galinha passar à frente de um dos rapazes alinhados, era motivo para terem que pagar uma multa, cuja receita servia para pagar a festa”, recordou o autarca. Assim, depois de preparada uma vitela, os jovens reuniam-se à mesa para um jantar, que antigamente se realizava num curral, em que só os rapazes solteiros podiam participar. “A carne era paga com o dinheiro das multas e cozinhada por alguns moços, que ficavam libertos de outras responsabilidades”, sublinhou o responsável. Depois do repasto, era a vez das raparigas participarem na festa, que se juntavam aos rapazes para o baile, ao qual assistiam os pais, ansiosos por observarem as suas filhas a dançar. Além desta tradição, Babe revitalizou, também, a Festa dos Homens Casados, que tem lugar no dia 30 de Dezembro. Só depois do jantar, exclusivamente masculino, é que as esposas se juntam à festa. “Pretendemos recuperar diversas festividades que marcam a região e que atraem cada vez mais pessoas de diversas localidades”, acrescentou Manuel Esteves. Freguesia ficou marcada pelo célebre Tratado de Babe Conhecida por ser a porta de entrada para o Planalto da Lombada, a freguesia ficou famosa pelo Tratado de Babe, celebrado em Março de 1387, entre D. João I e o Duque de Lencastre, através do qual se pretendia realizar o casamento entre o rei de Portugal e D. Filipa de Lencastre. Conta-se que a zona da Lombada acolheu, por ocasião deste Tratado, milhares de homens que acamparam na região, entre eles o Santo Condestável. Além deste conhecido episódio, a localidade terá sido, aquando do domínio romano, uma importante estação, como se pode comprovar pela estatura do castro e dos vestígios arqueológicos encontrados, como estelas funerárias e um marco milenário. Sabe-se, ainda, que por Castrogosa e a sul do castro da Sapeira passava a estrada romana que ligava Braga a Astorga. A par da sua rica e longínqua história, Babe ficou associada à exploração de minério como pirites de ferro, chumbo e manganês, bem como à produção de facas de bolso e cozinha, executadas por ferreiros com elevados conhecimentos."

terça-feira, 2 de junho de 2009

BEM BONITA

Bem bonita a natureza
Nesta época do ano.
Lá para a nossa Lombada
Com ar puro quase sempre:
Umas vezes vindo de Espanha
Mais cieirento...
Outras do lado de Bragança.
Tenho saudades de ver
Como está a paisagem
Neste fim de primavera.
Mas disposição não tenho
para meu canto deixar...
Relembro odores e coloridos
parecendo lá estar...
.
M. Teresa Fernandes

sexta-feira, 22 de maio de 2009

NO MEIO DA NATUREZA

No meio da Natureza
Senti-me quase intocável.
Sobre a terra imaculada
Sentei-me naquela mesa.
Das escarpas dos anos,recordando
Todo alpinismo da vida.
Fiquei ali quieta...
Ouvindo a passarada,
Vendo a policromia.
Senti o colorido
Ali já sem nostalgia.
O odor de tudo, invadindo
Do interior da montanha,
Minha alma inquieta agora
Na altura,
De solidez tamanha!!!
E tudo se agitava
Juntando as naturezas
Era a minha memória,
Ali naquelas altezas.
A esperança a raiar também
E eis que junto do sol
Ali fiquei mais parada
Como um simples rouxinol.
.
M. Teresa Fernandes (Docequimera)
http://ecosdapoesia.net/autores/mariatfernandes1.htm

segunda-feira, 18 de maio de 2009

NAMORO!



Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando
de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas

Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seus seios, laranjas - laranjas do Loje
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigenia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei à Avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbudo, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"-Não viu...(ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

Para me distrair
levaram-me ao baile do Sô Januario
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso
as moças mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim !"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.


Viriato da Cruz (Porto Amboim-Angola)

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Naquele tempo...!


Naquele tempo floriam os nabais:

O vento levantava-te as saias

E espargiam-se pelo amarelo garrido.

Depois espreitava-te entre os caules

E não dávamos pela queda da tarde

Parda, quente e borrifada pelo aguaceiro repentino

E sorvíamos o odor da terra.

Depois vinham ecoando as badaladas das trindades

E os gados recolhiam fartos

E sacudíamos as pétalas dos corpos.

Depois entrávamos na noite...

Hoje recordo:

A memória é tão bela

Como um fim de tarde soalheira de Maio.



Jorge Marrão (Caneças 2002)

sábado, 9 de maio de 2009

Flor sem tempo!1


Na mesma rua

Da mesma cor

Passava alegre

Sorria, amor.

Amor nos olhos

Cabelo ao vento

Gestos de prata

Da flor sem tempo

É dela o mundo

É certeza de viver.

Canta o sol

Que tens na alma

És a flor de ser feliz

Olha o mar na tarde calma

Ouve o que ele diz (2x)

Foi como o vento

Soprou num dia

Passava alegre

Alguém a via

É dela a vida

É certeza de viver

Canta o sol

Que tens na alma

És a flor de ser feliz

Olha o mar

Na tarde calma

Ouve o que ele diz (4x)

Intérprete: Paulo de Carvalho

Música: José Calvário

Letra: José A. Sottomayor

Traz Outro Amigo Também - José Afonso

quinta-feira, 16 de abril de 2009

ABRIL!!




Abril
Brinca a manhã feliz e descuidada,
como só a manhã pode brincar,
nas curvas longas desta estrada
onde os ciganos passsam a cantar.

Abril anda à solta nos pinhais
coroado de rosas e de cio,
e num salto brusco, sem deixar sinais,
rasga o céu azul num assobio.

Surge uma criança de olhos vegetais,
carregados de espanto e de alegria,
e atira pedras às curvas mais distantes
- onde a voz dos ciganos se perdia.

Eugénio de Andrade

domingo, 12 de abril de 2009

Páscoa

Anda a sineta tão persistente,
Na freguesia sempre a tocar.
Soa aos ouvidos de toda a gente,
De todas as ruas, de qualquer lugar.
Vem o compasso, é festa é alegria,
Traz água benta, o incenso e a cruz.
E ouvem-se vozes: Aleluia!
Já todos beijam os pés a Jesus.
Entram em casas, casebres, vivendas,
Em todos os lares, de rico ou pobreta.
Em cada visita recebem oferendas,
Persistente na rua toca a sineta.
“Tenha esta casa e quem nela mora
Viver fraterno, saúde e amor!
”E logo o compasso não se demora,
Lá vai de novo com a cruz do Senhor.
.
Estão as soleiras atapetadas,
Há verdes, flores e rosas no chão.
E não para o sineiro as badaladas
É festa e alegria do povo cristão.
Jesus ressuscitou, Aleluia!
Salta água benta do alecrim.
Anda o compasso numa euforia.
E canta a sineta tlim, tlimTlim, tlim. Tlim, tlim!
.
José Faria

terça-feira, 7 de abril de 2009

Zira inspirada!!!

Esta Zira babense,
Minha amiga desde sempre,
Inspirada concerteza
Colocou muitas postagens
E mudou cores da Teresa,
No blogue evidentemente.
Comunicou que tinha estragado
com medo da reacção...
Vim agora aqui ver
E achei boa alteração
.
Do cor de rosa do cabeçalho
não me cheira muito a Babe
mas como é cor da moda
talvez suavize as agruras,
das inóspitas lonjuras,
sobretudo em cada inverno;
e nesta primavera,
cuja geada estragou
muita árvore florida
que fruta vai falhar,
sobretudo as cerejas
que adoro saborear.
...
Um abraço ZiRA.
Acho que desta vez
ainda ficas viva!!!

quinta-feira, 2 de abril de 2009

RECEITA DE FOLAR !!


Ingredientes:
1 kg de farinha de trigo
250 g de manteiga
20 g de fermento de padeiro
1,5 dl de azeite
12 ovos
1 salpicão
1 chouriço
presunto
água morna


Preparação:
Coloca-se a farinha num alguidar, faz-se uma cova no centro e deita-se o fermento desfeito num pouco de água morna.
Aquecem-se os ovos em água , partem-se e batem-se levemente. Vão-se misturando, pouco a pouco, com a farinha, continuando a bater. Adiciona-se a manteiga e o azeite também aquecidos. Bate-se a massa com a mão até desprender do fundo do alguidar. Polvilha-se com farinha, tapa-se com um pano e deixa-se levedar até que o volume duplique.
Depois divide-se a massa em duas partes, estende-se e, sobre uma delas, colocam-se as carnes cortadas aos bocados. Por cima dispõe-se a restante massa, unindo bem as pontas e dobrando-se sobre si mesmas para que o folar fique mais alto. Deixa-se levedar durante meia hora.
Decora-se a gosto, vai ao forno quente para cozer.

Poema - CESÁRIO VERDE


Naquele piquenique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!