domingo, 21 de dezembro de 2008

NATAl

É noite.
Pelas ruas, vago sem destino.
Luzes, vitrines coloridas, bolas multicor…
Em cada canto, um Pai Natal vende ilusão.
Ansiosa procuro o aniversariante:
Nas lojas, nas árvores iluminadas,
Nos sinos que cantam sem cessar:
“Noite Feliz, Noite Feliz…”
Tudo em vão.
Já cansada, encontro, num cantinho,
Um pobre menino,
Triste, solitário, mal vestido,
A cada um lançando seu olhar,
A cada qual implorando seu presente:
Nem carrinhos comandados,
Nem robôs, nem celulares…
Apenas, tão somente, pede amor.
Só então vejo Jesus que nele habita.

Celina Figueiredo

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Os putos

Uma bola de pano, num charcoUm sorriso traquina, um chutoNa ladeira a correr, um arcoO céu no olhar, dum puto.
Uma fisga que atira a esperançaUm pardal de calções, astutoE a força de ser criançaContra a força dum chui, que é bruto.
Parecem bandos de pardais à soltaOs putos, os putosSão como índios, capitães da maltaOs putos, os putosMas quando a tarde caiVai-se a revoltaSentam-se ao colo do paiÉ a ternura que voltaE ouvem-no a falar do homem novoSão os putos deste povoA aprenderem a ser homens.
As caricas brilhando na mãoA vontade que salta ao eixoUm puto que diz que nãoSe a porrada vier não deixo
Um berlinde abafado na escolaUm pião na algibeira sem cor
.....
Ary dos Santos

Rui Veloso - Não Há Estrelas no Céu

sábado, 13 de dezembro de 2008

Livro----Novela Juvenil tendo Babe como "cenário"

Aproximava-se o Natal e com ele, a Festa dos Rapazes na Lombada, em Bragança. Não só em Deilão, Vila Meã, S. Julião, Caravela, Palácios e Petisqueira, mas sobretudo em Babe, todos os rapazes solteiros andavam num alvoroço, correndo de casa em casa, a falarem uns com os outros, a combinarem como seria ou não seria a sua festa naquele ano.Mas não era só nestas terras:o entusiasmo estendeia-se para além da Lombada..


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In : caretos e farandulas, JORGE TUELA, art e escrita editora, Dez.2008, pag.17


Apresentado hoje em Gaia

"Contos de Natal"


..Há muitas coisas das quais tirei talvez algum proveito,
embora o lucro não seja material. O Natal é uma delas.
Sempre considerei, creio, o Natal, quando a época se aproxima,
uma coisa boa... já sem falar da veneração que lhe é devida
pelo seu nome e origem sagrados,
se é que nós podemos abstrair desse aspecto.

É uma altura amável, própria para perdoar, para fazer caridade;
é a única altura, durante o longo calendário do ano,
em que os homens e as mulheres parecem abrir livremente,
e de comum acordo, os seus corações fechados,
para pensarem naqueles que se encontram mais desprotegidos,
como se fossem todos, realmente,
caminheiros na mesma viagem...

Apesar de nunca ter no bolso
uma peça de ouro ou prata minha,
acredito sinceramente
que o Natal me fez,
e continuará a fazer, mais rico..."

(Do livro "Contos de Natal", de CHARLES DICKENS)

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Histo'ria Antiga






Natal todos os dias

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.

Feio bicho, de resto:

Uma cara de burro sem cabresto

E duas grandes tranças.

A gente olhava, reparava e via

Que naquela figura não havia

Olhos de quem gosta de crianças.



E, na verdade, assim acontecia.

Porque um dia,

O malvado,

Só por ter o poder de quem é rei

Por não ter coração,

Sem mais nem menos,

Mandou matar quantos eram pequenos

Nas cidades e aldeias da nação.



Mas, por acaso ou milagre, aconteceu

Que, num burrinho pela areia fora,

Fugiu

Daquelas mãos de sangue um pequenito

Que o vivo sol da vida acarinhou;

E bastou

Esse palmo de sonho

Para encher este mundo de alegria;

Para crescer, ser Deus;

E meter no inferno o tal das tranças,

Só porque ele não gostava de crianças.



(Miguel Torga)

O MEU NATAL



Que saudades, do Natal dos meus pais.
Da Família que se reunia,
Para adorarem o Menino.
Pois neste sagrado dia
Éramos, todos nós iguais.
Até o mais pobre e pequenino,
Pela forte Fé que sentia,
Apenas com pouco mais
Já ter muito lhe parecia.
No Presépio, em palhinhas dormia,
O Menino Jesus tão docemente,
São José, Maria, a vaquinha, o burrinho.
Os sinos repicando alegremente
A Missa do Galo que alegria,
Com que a gente se punha a caminho,
Porque, no Natal de antigamente
Mesmo que caísse a neve fria,
A nossa Alma estava quente...
Felizes Natais do Passado,
Da vida que passa a correr,
E só em sonhos nos aparecem,
Como é bom agora Adormecer.
E em recordações embalado,
De tempos que não se esquecem,
Assim antes na velhice ter
Um Natal desses sonhado,
Que os do Presente viver.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Natal

Descalço venho dos confins da infância,
E a minha infância ainda não morreu...
Em face e atrás de mim ainda há distância.
Ó Menino Jesus da minha infância,
Tudo o que tenho (e nada tenho!) é Teu!
*********
(Pedro Homem de Mello)

NAVEGA de Fernando Pessoa

Navega, descobre tesouros,mas não os tires do fundo do mar,o lugar deles é lá. Admira a Lua,sonha com ela,mas não queiras trazê-la para Terra. Goza a luz do Sol,deixa-te acariciar por ele.O calor é para todos. Sonha com as estrelas,apenas sonha,elas só podem brilhar no céu. Não tentes deter o vento,ele precisa correr por toda a parte,ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde. As lágrimas?Não as seques,elas precisam correr na minha, na tua, em todas as faces. O sorriso!Esse deves segurar,não o deixes ir embora, agarra-o! Quem amas?Guarda dentro de um porta jóias, tranca, perde a chave!Quem amas é a maior jóia que possuis, a mais valiosa. Não importa se a estação do ano muda,se o século vira, conserva a vontade de viver,não se chega a parte alguma sem ela. Abre todas as janelas que encontrares e as portas também.Persegue o sonho, mas não o deixes viver sozinho.Alimenta a tua alma com amor, cura as tuas feridas com carinho. Descobre-te todos os dias,deixa-te levar pelas tuas vontades,mas não enlouqueças por elas. Procura!Procura sempre o fim de uma história,seja ela qual for. Dá um sorriso àqueles que esqueceram como se faz isso.Olha para o lado, há alguém que precisa de ti.Abastece o teu coração de fé, não a percas nunca. Mergulha de cabeça nos teus desejos e satisfá-los.Agoniza de dor por um amigo,só sairás dessa agonia se conseguires tirá-lo também. Procura os teus caminhos, mas não magoes ninguém nessa procura.Arrepende-te, volta atrás,pede perdão! Não te acostumes com o que não te faz feliz,revolta-te quando julgares necessário.Enche o teu coração de esperança, mas não deixes que ele se afogue nela. Se achares que precisas de voltar atrás, volta!Se perceberes que precisas seguir, segue! Se estiver tudo errado, começa novamente.Se estiver tudo certo, continua. Se sentires saudades, mata-as.Se perderes um amor, não te percas!Se o achares, segura-o! Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala."O mais é nada".
***************
Fernando Pessoa

POSTAL DE CORREIOS

O meu Menino Jesus







Autor-Alberto Caeiro:

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.

Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -

Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
“Se é que ele as criou, do que duvido.” -
“Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.”
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios

Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?

sábado, 6 de dezembro de 2008

Poema de Natal!




Natal divino ao rés-do-chão humano,
Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo
Na fogueira.

O mito apenas velado
Como um cadáver
Familiar…
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar…

Miguel Torga

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

De Miguel Torga

Paisagem Humana
"A realidade transmontana está associada a factores que exercem influência na singularidade das atitudes e da cultura do homem montanhês. Este, tal como Miguel Torga o canta, está habituado ao isolamento morfogeológico e crente só em si na luta pela sobrevivência, assume-se como entidade autóctone, dotada de notável robustez, de grande coragem, de sentimento granítico e de espírito aberto, franco e solidário com seus irmãos. Homens de uma só peça , inteiriços, altos e espadaúdos, que olham de frente e têm no rosto as mesmas rugas do chão. Castiços nos usos e costumes, cobrem-se com varinos, croças e mais roupas de serrobeco ou de colmo, e nas grandes ocasiões ostentam uma capa de honras, que nenhum rei! [...] Bata-se a uma porta, rica ou pobre, e sempre a mesma voz confiada nos responde:–Entre quem é!Sem ninguém a perguntar mais nada, sem ninguém vir à janela espreitar, escancara-se a intimidade duma família inteira. O que é preciso agora é merecer a magnificência da dádiva. Trás-os-Montes O território torguiano, como o poeta tão bem trasladou em forma de letra para a sua obra, é todo o Portugal, e é ainda a Ibéria. Neste roteiro é, no entanto, obrigatório delimitar, nesta vastidão espacial, as principais fronteiras. Eis Trás-os-Montes. A autoridade emana da força interior que cada qual traz do berço. Dum berço que oficialmente vai de Vila Real a Montalegre, de Vinhais a Bragança, de Bragança a Miranda, de Miranda a Freixo, de Freixo à Barca de Alva, da Barca à Régua e da Régua novamente a Vila Real, mas a que pertencem Foz Côa, Meda, Moimenta e Lamego - toda a vertente esquerda do Doiro até aos contrafortes do Montemuro, carne administrativamente enxertada num corpo alheio, que através do Côa, do Távora, do Torto, do Varosa e do Balsemão desagua na grande veia cava materna as lágrimas do exílio.Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição. Terra-Quente e Terra-Fria. Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um frio de neve. Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas. Nos intervalos, apertados entre os lapedos, rios de água cristalina, cantantes, a matar a sede de tanta aridez. E de quando em quando, oásis da inquietação que fez tais rugas geológicas, um vale imenso, dum húmus puro, onde a vista descansa da agressão das penedias. Veigas que alegram Chaves, Vila Pouca, Vilariça, Mirandela, Bragança e Vinhais.Mas novamente o granito protesta. Novamente nos acorda para a força medular de tudo. E são outra vez serras, até perder de vista."
MIGUEL TORGA