quarta-feira, 3 de outubro de 2007

A minha memória sobre as vindimas na alta lombada trasmontana

Na minha terra ia à vindima quando era miúda mas acho que comia mais uvas do que punha nos cestos...tanto eu como as restantes crianças. As uvas eram colocadas nas cestas ou cestos individuais que cada um usava, mantendo perto de si e depois despejava nos coleiros, bastante maiores. Esses eram levados pelos homens para os carros de bois que estavam preparados para o efeito (transportar as uvas para o lagar, o pio...assim se designava lá também ou para grandes tinas de madeira) em que eram despejadas, sendo depois pisadas, também pelos homens para o processo de fermentação até sair o vinho, ficando dentro desse recipientes as "borras" que depois da separação do líquido eram usadas para fazer aguardente. Que saudades tenho das maçãs e marmelos que cozia nesse monte fumegante de desperdícios quando se retiravam dos alambiques já depois da aguardente feita! E recordo a alegria que moças e moços mantinham nessa actividade, cantando e brincando já que lá na a vindima ou era própria ou de torna geira e patrão, se havia era muito raramente. Nesse caso as brincadeiras eram menores, suponho eu. Uns anos mais tarde as uvas começaram a ser transportadas por tractores, deixando, então de se ouvir o chiar dos carros de bois pelos caminhos e nas ruas da aldeia. MT
Out. 2007

"Confiança" Miguel Torga


O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura…
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova…

Miguel Torga

Uma das utilidades das cestas


Imagem encontrada no Google

terça-feira, 2 de outubro de 2007

CESTARIA

"A cestaria, cuja origem, no nosso país remonta pelo menos, à cultura castreja, continua a ser nos nossos dias, uma actividade indispensável na economia da vida rural e doméstica. No norte de Portugal, a cestaria faz-se representar por uma infinidade de objectos, de formatos e feitios diversos, executados em junco, palha centeia, madeira e verga, segundo várias técnicas e destinados a diferentes usos, desde os trabalhos rurais ao transporte de compras. Os cestos, destinados aos serviços rudes da lavoura, da pesca e do comércio, são feitos com madeira rachada em tiras, levrada no banco e encastrada.(...) Para serviços mais limpos são fabricados cestos com vergas – varas de vime e salgueiros, a que se tirou a casca – como o açafate, usado principalmente como cestinho de costura, e a cesta de cigana, muito popular entre as vendedeiras ambulantes, que nela transportam a fruta, o peixe, a hortaliça ou as quinquilharias”(...)

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Citações da obra “Artesanato da Região Norte”, Instituto do Emprego e Formação Particular, Delegação Regional do Norte, Núcleo de Apoio ao Artesanato, Porto, 1996.

Nem todas as giestas dão verga para as cestas

Giestas floridas...também as há com flor branca e antes de florirem servem também para fazer vassouros ...actualmente para varrer somente em piso ásper ou na rua mas antigamente era com que se varria a casa, as eiras e tudo mais...As vassouras só há poucas décadas é que se tornaram usuais, quando passou a haver mais dinheiro no meio rural, acho.
Apanhar a verga no monte
Ripar e deixar secar...
Fica depois, acho que humedecida
Pronta para moldar.
E fazer cestas de formas variadas
Quem souber!
Um dia pensei aprender
Mas deixei passar o momento
E agora compro feitas
Para o pão...para a fruta
Para eu depois pintar e usar
Ou oferecer
Artesanato de BABE.

No jardim do João também há giestas- escovas lá na terra- para colher verga


Espero que ele que é habilidoso aprenda a fazer cestas também!!!

Cestaria da região de Bragança


E se forem a Babe procurem onde há a vender que encontram de vime , de verga, acho que de salgueiro tb.

Trás-os -Montes

Sentida terra
Marcadamente agreste
De límpidos silêncios
Minha terra
De tons castanhos
E gestos quentes
Onde se festeja sem frio
O espírito d'Inverno
Com o calor do amor
E a cor da vida
Onde o calor baila
Com a calma da alma
Da terra sentida
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Desconheço autoria

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

De Guerra Junqueiro (Natural de Freixo de Espada à Cinta)

OS SIMPLES (extracto)REGRESSO AO LAR
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Ai, há quantos anos que eu parti chorando deste meu saudoso, carinhoso lar!... Foi há vinte?... Há trinta?... Nem eu sei já quando!... Minha velha ama, que me estás fitando, canta-me cantigas para me eu lembrar!...Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida... Só achei enganos, decepções, pesar... Oh, a ingénua alma tão desiludida!... Minha velha ama, com a voz dorida. canta-me cantigas de me adormentar!...Trago de amargura o coração desfeito... Vê que fundas mágoas no embaciado olhar! Nunca eu saíra do meu ninho estreito!... Minha velha ama, que me deste o peito, canta-me cantigas para me embalar!...Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho pedrarias de astros, gemas de luar... Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!... Minha velha ama, sou um pobrezinho... Canta-me cantigas de fazer chorar!...Como antigamente, no regaço amado (Venho morto, morto!...), deixa-me deitar! Ai o teu menino como está mudado! Minha velha ama, como está mudado! Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...Canta-me cantigas manso, muito manso... tristes, muito tristes, como à noite o mar... Canta-me cantigas para ver se alcanço que a minha alma durma, tenha paz, descanso, quando a morte, em breve, ma vier buscar!
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E até lá que vivamos serenamente no momento presente...no dia que passa MT

Já foi há anos...