terça-feira, 18 de agosto de 2009

Ela Canta, Pobre Ceifeira



Ela Canta, Pobre Ceifeira

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões pra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente ‘stá pensando.
Derrama no meu coração a tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro!
Tornai Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

2 comentários:

Tere disse...

Olá "linda ceifeira" do chapéu de palha...na foz até parece que ceifas a valer...Obrigada pelo poema escolhido e pela vossa foto para este blogue de Babe, onde eu cheguei já com tudo ceifado, mesmo com os feijões verdes já a terminarem antecipadamente.o sol ...o caloroso sol que chegou quando quis e não quando devia.

Cheguei hoje. Beijos para vós

Tere

Tere disse...

*na foto e não voz...ai ai ai, esta influênciado título do poema!