segunda-feira, 16 de março de 2009

Encontrei-te numa noite fria e longa


"Encontrei-te numa noite fria e longa

No caminho que conduz à vida

E porque começaste a falar sem eu nada te perguntar

Agucei o ouvido para ouvir o que tinhas para dizer.


Tinhas nascido numa noite igual a tantas outras

Perdidas no calendário do tempo.



Passaste fome, frio e desalento

Num ambiente familiar hostil e pardacento

Igual à rua estreita e suja por onde caminhavas descalço

Ora conversador, ora sisudo

Como se o mundo se encontrasse de pernas para o ar

Mas tu continuavas de rua em rua, de casa em casa

Sempre nas tuas deambulações.


Sei que adoravas ver os burros, os cavalos e as vacas

Pelo alvorecer, quando se dirigiam ao bebedouro comunal

Para de seguida cada qual seguir o seu caminho

Mas o dia ainda mal começava e tu já fremias

Para ir até ao adro da Igreja ver as pessoas

Que às sete da manhã iam ouvir o padre falar

Sobre o que Cristo tinha padecido às mãos dos homens.


Mais tarde, eram horas para trocar impressões

E tagarelar acerca da família e do dia de trabalho

Que ainda mal começara.





Pouco a pouco todos iam abandonando o lugar

Tu, olhavas em redor e seguias pela rua da procissão até às eiras

Onde alguns grupos teimavam em ficar

Como se tivessem algo a tratar

Talvez! pensavas tu

Coisas de vivos e de mortos

Ou simplesmente de como ia estar o tempo

Ou de doenças que teimam em ficar

No corpo e no espírito, para mal ou para bem

Das nossas vidas, ou simplesmente coisas que arranjamos

Para matar o tempo

Como se não fosse o tempo que nos vai matando!


Tomaste consciência que o teu mundo

Era, também, o de toda aquela gente

Tal como as suas mágoas e o seu sofrimento.

A política não tinha chegado aquele fim do mundo

Ou, quiçá, por lá passara e arredara

Antes que atrapalhasse em vez de ajudar nas tarefas diárias

Que por si mesmas ou pela força das circunstâncias

Já eram demasiado penosas.


Os dias e as noites foram-se arrastando

Até à alvorada da tua juventude

E a enxurrada que foi a tua vida

Deu-te valentes trambolhões

Que transformaram a tua vida num rosário

Austero e rotineiro."

1 comentário:

Tere disse...

Zira, escolheste de novo bem. Bjs